Vô Laim e o cacau

Tinha cacau no sacolão do bairro ontem e bateu uma saudade do meu avô. Cacau sempre me lembrará dele. Seja no supermercado ou no pé. A maioria dos meus amigos nunca comeram cacau, a fruta. Acreditam também que ele seja marrom. Eu sempre conto a história do meu avô e o cacau com orgulho: no quintal da casa dos meu avôs tinha um pé de cacau. E meu avô não podia ver um maduro que dizia: “vou levar pra Ruthiely”. Quando eu não ia buscar, ou ele mandava me entregar.

Eu aprendi muito cedo que o cacau é branco por dentro, amarelo por fora, quando maduro, e seu gosto não tem nada a ver com nosso chocolate. É delicioso também, mas do jeitinho dele antes de virar chocolate.

Meu avô era um homem forte. Alemão, dos olhos azuis e usava chapéu. Eu não conheço outra pessoa que use chapéu. E, quando vejo por acaso na rua, eu sempre acho que lembra ele, mesmo não parecendo fisicamente. Ele era um homem da roça. Plantava milho, mandioca no terreno vago do lado da casa dos meus pais. Chegou um certo ponto da vida dele, que ele não podia mais capinar ou plantar, por proibição médica. Ele ficava alguns dias longe e, quando a gente assustava, estava ele lá, sem camisa (!) no sol rachando com uma enxada nas mãos. Comemos muitas coisas que ele plantou após sua morte. A vida chega a ser engraçada. Estamos nela sempre deixando alguma coisa pra quem for ficar por aqui.

No velório dele, eu não quis vê-lo no caixão. Meu outro avô ficou muito bravo. De hora em hora, me chamava pra ir lá vê-lo e eu me recusei até o último momento. Porque eu queria lembrar dele desse jeitinho que estou escrevendo: vivo e forte.

Meu avô era cristão. Lia a bíblia, frequentava a igreja e almoçava, religiosamente, às 11h30 todos os dias. Sempre dizia que o mundo iria acabar em fogo, porque já acabou em água e que o fim estava próximo. Ele era um homem bom. E morreu sem sofrer, sem dar sofrimento, só deixou saudade. Muita saudade.

Vô Laim gostava dos animais. De cachorro e amava crianças. Na infância, saía com a gente pra passear e enchia a minha mão e das minhas irmãs de bala. Visitava nossa casa no momento da minha soneca vespertina de bebê e me acordava da janela só pra me ver. E isso tudo escondido. Fingia que eu tinha despertado sozinha. Como pode? Já avô e ainda sendo peralta.

Às vezes, sonho com ele. E não são aqueles sonhos que parece ser uma pessoa, mas na verdade é outra pessoa. É ele. E sempre acordo com uma saudade. Meu último sonho, eu o abraçava pela cintura e dizia: “que saudade, vô!”. Aí eu acordei saudosa mais uma vez.

Ele era um querido. O meu querido. Na semana que ele morreu, há quase 9 anos, eu tinha viajado pra prestar meu primeiro vestibular aqui na cidade que vivo atualmente. E, segundo a minha avó, no início dessa mesma semana, ele estava perguntando por mim. Se eu já tinha voltado de viagem. Eu voltei e, infelizmente, não lembro claramente a última vez que o vi. Talvez tenha sido essa cena que tenho na memória: eu voltando da escola e encontrando ele na esquina. Ele estava voltando do terreno lá de casa. Devia está plantando, colhendo ou apenas lá se despedindo. Não lembro das palavras ditas naquela ocasião. Mas certamente iniciou com: “bença, vô” e dele um: “Deus te abençoe”.

Meu avô era homem valente. E eu que pareço forte, me derreto toda vez que lembro dele. Eu nunca perdi alguém mais próximo. Por isso, ele é minha maior saudade. Não tenho arrependimentos em relação a ele sobre o que eu deveria ter feito ou sido. Eu só queria que ele estivesse aqui e soubesse quem eu me tornei, conhecesse meus sobrinhos e fosse passear com eles e enchesse a mão deles de balas de iogurte e maça verde.

Não penso onde ele está, porque minha mente é tão limitada a este mundinho. Eu só espero que ele esteja bem  e que, de alguma maneira, saiba o quanto eu o amei e vou amar. Ah, e que também saiba que não comprei o cacau do sacolão, pareciam velhos e sei que ele jamais aceitaria que eu comesse algo assim.

 

 

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