doação, desmaio e outras coisas

Eu desmaiei semanas atrás. Numa loja de produtos com valores a partir de R$ 1,99 aqui perto de casa. Eu resolvi doar sangue naquela semana. Era a terceira vez que eu doaria na vida. E nunca havia desmaiado. A distância de uma doação pra outra é de anos e todas elas têm uma ligação que se torna cômica em certo ponto. Na primeira vez, a estagiária da clínica passou mal e foi retirada da sala de testes. Na segunda vez, a médica chamou um cardiologista velhinho e calmo. Ele ficou ali quietinho ouvindo minhas batidas do coração e disse, enquanto passava a mão na minha cabeça, que estava tudo certo. Que eu poderia doar, mesmo achando engraçado meus batimentos cardíacos parecerem os de uma criança. Na terceira vez, eu desmaiei.

Foram dois desmaios em menos de dez minutos. Eu apaguei. Eu senti a dor da queda e acordei sem entender nada. Também não ouvi nada durante o apagão. Não senti nada. Não tive visões. Acordei com os funcionários me levantado e dando água. No segundo desmaio, acordei com uma senhora desconhecida orando e segurando a minha mão e a funcionária ligando para o SAMU. Até que consegui falar que tinha doado sangue e, ali mesmo, na loja de um e noventa e nove, os clientes já me diagnosticaram com fraqueza e começaram a me oferecer pão de queijo fresquinho. Era fraqueza sim, fome não. Eu tinha tomado café da manhã, comido o lanche da clínica antes e depois da doação. Era apenas fraqueza. Ou porque subi um morro íngreme na saída da clínica. Levantei muito rápido. Poderia ser por tantos motivos, eu apenas não queria e nem tinha forças pra explicar.

Então, após o fraco episódio daquela quarta-feira, eu caminhei lentamente em direção à minha casa com a ajuda da mesma senhora que segurou minha mão e fez uma oração enquanto eu estava apagada no chão da loja. Não sei se foi o efeito da oração que me fez acordar, no entanto, foi bom ter alguém, mesmo desconhecido, segurando a minha mão e querendo que eu ficasse bem. Ou não morresse na presença dela. Vai saber.

Eu cheguei em casa e deitei. E tive uma das piores noites insones da minha vida. Não consegui dormir a tarde e nem à noite. Fui dormir lá pelas cinco horas da manhã do outro dia. Não me recordo exatamente o que fiquei fazendo. Lembro que fiquei pensando naquele período de tempo que apaguei e não sentia nada. Parece mórbido dizer, mas foi bom não estar em lugar algum. Eu estava naquele momento, seja lá onde ele era, eu estava lá. Nem a frente, nem atrás. Apenas lá. Pensei também quais tinham sido minhas últimas mensagens e ligações, tudo que tinha feito até o momento do apagão e me questionei: se tivessem sido os últimos momentos, teriam valido a pena? Ainda não respondi a questão … (continua)

“I’ve been thinkin’ ‘bout the meaning of resistance
Of a world beyond my own And suddenly the infinite and penitent Began to look like home”.

p.s: DOE SANGUE, DOE VIDA!

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